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Acerca do bem e do malFulano é "do bem", Sicrano é "do mal". 1511

Acerca do bem e do malFulano

é "do bem", Sicrano é "do mal". Não, não são crianças comentando um

filme de mocinho e bandido; são frases de adultos, reiteradas a

propósito das mais diferentes pessoas, nas mais diversas situações. O

julgamento definitivo e em preto e branco que elas implicam parece

traduzir o esforço de adotar, em meio ao caldeirão de valores da

sociedade moderna, um princípio básico de qualificação moral e ética.

Essa oposição rudimentar revela a necessidade que temos de estabelecer

algum juízo de valor para a orientação da nossa própria conduta. Tal

busca de discernimento é antiga, e em princípio é legítima: está na base

de todas as culturas, dá sustentação a religiões e inspira ideologias,

provoca os filósofos, os juristas, os políticos. O perigo está em que o

movimento de busca cesse e dê lugar à paralisia dos valores

estratificados.O exemplo pode vir de cima: quando um

chefe de poderosa nação passa a classificar países inteiros como

integrantes do "eixo do mal", está-se proclamando como representante dos

que constituiriam o "eixo do bem". Essa divisão tosca é, de fato, muito

conveniente, pois faculta ao mais forte a iniciativa de intervir na

vida e no espaço do mais fraco, sob a alegação de que o faz para

preservar os chamados "valores fundamentais da humanidade". Interesses

estratégicos e econômicos são, assim, mascarados pela suposta

preservação de princípios da civilização. A História já nos mostrou,

sobejamente, a que levam tais ideologias absolutistas, que se atribuem o

direito de julgar o outro segundo o critério da religião que este

professa, do regime político que adota, da etnia a que pertence. A

intolerância em relação às diferenças culturais, por exemplo, acaba

levando o mais forte à subjugação das pessoas "diferentes" - e mais

fracas. É quando a ética sai de cena, para dar lugar à barbárie.            A

busca de distinção entre o que é "do bem" e o que é "do mal" traz

consigo um dilema: por um lado, não podemos dispensar alguma bússola de

orientação ética e moral, que aponte para o que parece ser o justo, o

correto, o desejável; por outro lado, se o norteamento dos nossos juízos

for inflexível como o teimoso ponteiro, comprometemos de vez a dinâmica

que é própria da história e dos valores humanos. Não há, na rota da

civilização, leis eternas, constituições que não admitam revisões,

costumes inalteráveis. A escolha do critério de julgamento é sempre

crítica e sofrida, quando responsável; dispensando-se, porém, a

responsabilidade dessa escolha, restará a terrível fatalidade dos

dogmas. Lembrando o instigante paradoxo de um filósofo francês, "estamos

condenados a ser livres". Nessa compulsória liberdade, de que fala o

filósofo, a escolha entre o que é "do bem" e o que é "do mal" é uma

questão sempre viva, que merece ser analisada e enfrentada em suas

particulares manifestações históricas. Se assim não for, estará

garantido um espaço cada vez maior para a ação dos fundamentalistas de

todo tipo.(Cândido Otoniel de Almeida)Alterando-se a pontuação de um segmento do texto, ela permanecerá defensável e coerente, considerado o contexto, em:

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